MURAL
Precursores

Arne Sucksdorff
Arne Sucksdorff foi um cineasta sueco de grande destaque, conhecido principalmente por sua sensibilidade única ao retratar a natureza e as relações entre o homem e o meio ambiente. Nascido em Estocolmo, em 3 de fevereiro de 1917, Sucksdorff iniciou sua carreira com projetos que mesclavam o ensaio visual de paisagens, animais e elementos naturais a uma narrativa poética, o que o levou a ser reconhecido internacionalmente. Seu curta-documentário "Människor i Stad" (conhecido em alguns países como Ritmo da Cidade ou Symphony of a City) rendeu a ele o Oscar de Melhor Curta-metragem em 1949, marcando o início de uma carreira repleta de inovações visuais e temáticas.
Além de sua atuação na Europa, Sucksdorff manteve uma relação muito especial com o Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro em 1962 a convite da UNESCO para oferecer cursos de cinema para jovens brasileiros, onde teve entre seus alunos importantes nomes que viriam a integrar o movimento do Cinema Novo, como Vladimir Herzog, Joaquim Pedro de Andrade, e Nelson Pereira dos Santos. Fascinado pela diversidade cultural e pelas paisagens brasileiras, Sucksdorff acabou se encantando especialmente com o Pantanal, região onde passou mais de 30 anos.
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No Pantanal, além de produzir documentários e registrar a beleza selvagem do bioma, Arne Sucksdorff se envolveu ativamente na defesa do ambiente. Ele não apenas documentou a natureza com um olhar poético, mas também se posicionou contra práticas exploratórias, denunciando caçadores ilegais e alertando sobre a importância da preservação ambiental. Essas ações o consolidaram como um precursor do cinema ambientalista e um ativista preocupado com a sustentabilidade, ajudando a colocar o Pantanal no mapa mundial tanto para o ecoturismo quanto para a conservação.
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A sua trajetória na região é também marcada por uma imersão no cotidiano local: casou-se com uma cuiabana, Maria da Graça, e passou a viver intensamente as experiências e tradições dos habitantes do Pantanal. Histórias curiosas, como a criação de uma ariranha, um filhote de ante e dois quatis como animais de estimação, ilustram bem o quanto o cineasta se integrou ao ambiente e à cultura pantaneira, num esforço de construir uma ponte entre a arte, o ativismo ambiental e a vida local. Essa convivência permitiu que suas produções transmitisse uma autenticidade rara, transformando seu registro do Pantanal em uma homenagem perene à natureza e um convite à reflexão sobre nossas práticas de exploração e preservação do meio ambiente.

Névio Lotufo
Névio Lotufo, filho de José Lotufo e Dona Francisca Hugueney Capriata Lotufo, nasceu no dia 29 de maio de 1931, na Rua 13 de junho. Lotufo foi cineasta por conta própria e o primeiro mato-grossense a produzir um filme em película. No mesmo local em que sempre viveu, era proprietário da bicicletaria “MotosBlim”, no centro de Cuiabá, a mais antiga da cidade. Névio projetava filmes em frente à sua bicicletaria de forma gratuita, para que as pessoas apreciassem obras cinematográficas, além de ser um atrativo para que conhecessem seu estabelecimento. Ademais, transformou o local em um “museu” de equipamentos da área cinematográfica, da Comunidade Italiana, selos e tantos outros objetos culturais. Possuía filmadoras, filmes, equipamentos fotográficos e telefones de diversos tipos.
Conhecido não somente pela sua relação carinhosa com o cinema e suas facetas, Névio foi fundador da Cruz Vermelha em Mato Grosso, onde trabalhou como voluntário, em toda a sua existência. O multiprofissional era um homem dinâmico, que transitou por diversas áreas da cultura e esportes, além de ser um grande colecionador.
Foi o primeiro colecionador de carros antigos em Cuiabá e o primeiro a constituir um time profissional de basquetebol. Viveu como ciclista, jogador de vôlei e futebol, patinador, fotógrafo, comerciante, escoteiro, apaixonado por dança e tão exímio dançarino que ensinava pessoas a dançar sem cobrar nada.
Névio Lotufo carregou a tocha olímpica em sua passagem pela cidade nas Olimpíadas de 2016, se orgulhava e dizia que era um de seus maiores feitos. Ao ser agraciado pela Câmara de Vereadores de Cuiabá no início dos anos 2000, tornou- se o “comendador Lotufo” e é reconhecido como figura histórica para o cinema, cultura, esportes e lazer em Cuiabá.
Fontes:
BARRETO, Neila, “Névio Lotufo é a Cara de Cuiabá”. A Imprensa de Cuiabá, 2022.
https://www.aimprensadecuiaba.com.br/opiniao/nevio-lotufo-e-a-cara-de-cuiaba/5498

Sebastião Palma
Sebastião Rodrigues Palma nasceu em Cuiabá em 30 de janeiro de 1944, filho de José Rodrigues Palma Jr. e Olinda de Arruda Palma. Estudou o primário no Colégio São Gonçalo e quando criança, foi morar com uma tia, em Campo Grande e anos depois voltou a Cuiabá. Ainda adolescente, começou a trabalhar com Bella Tabory, com quem aprendeu a mexer com projeção de cinema e também a consertar rádios. Depois dessas experiências, Sebastião deixou de lado os estudos formais e realizou cursos por correspondência no Instituto Americano para consertar rádios.
A partir dali, seguiu aperfeiçoando seus conhecimentos quase como um autodidata: recebia panfletos ou comprava revistas que ensinavam a fazer e a consertar rádios. Por diversas vezes consultava manuais em inglês, mesmo sem falar uma única palavra naquele idioma. Tornou-se, assim, um exímio técnico. Montou em casa uma oficina para consertos de rádios. Personalidades da época, como Jacildo & seu Conjunto e Neorosito Barbosa, procuravam Sebastião em busca de assistência técnica para seus equipamentos.
Alguns anos depois Sebastião mudou-se para Poconé, onde manteve um serviço de alto-falante, que funcionava como uma verdadeira rádio. O negócio foi um sucesso mesmo que Sebastião não soubesse a forma correta de cobrar pelos serviços que prestava.
Sebastião foi funcionário da UFMT, onde dedicou-se profundamente a seu trabalho na Coordenação de Cultura e, principalmente, no Cineclube Coxiponés, atuando como projecionista e técnico de som. Por sua experiência com aparelhos de rádio, projetores, amplificadores e outros adquiriu enorme sensibilidade para o som no cinema, sendo capaz de regular como ninguém a amplificação sonora das projeções cinematográficas do Cineclube.
Sebastião Palma tinha a UFMT como seu segundo lar. Todos que conviveram com esta grande personalidade admiravam sua entrega e dedicação ao trabalho e também a generosidade e o interesse com que ele se relacionava com todos à sua volta. Sebastião faleceu em Cuiabá, em 15 de setembro de 2017. Para o Cineclube Coxiponés da UFMT, Sebastian is not dead.
(Texto construído em colaboração com Lúcia Palma, irmã de Sebastião Palma)

Aníbal Alencastro
Nascido em 1º de novembro de 1943, no distrito de Nossa Senhora da Guia (Cuiabá-MT), Aníbal Alencastro é um entusiasta da pesquisa sobre Mato Grosso, com destaque para aspectos da vida cultural e para a memória das salas de cinema do Estado. Através de sua trajetória e atuação profissional, participou ativamente das últimas sete décadas da vida cultural do estado.
Durante a adolescência em Cuiabá, após diversas tentativas, Aníbal Alencastro trabalhou no Cine São Luiz, onde descobriu sua paixão pelo cinema. Lá começou apenas escrevendo os cartazes de filmes, mas com o tempo aprendeu a operar os projetores de 16mm e 35mm. Após isso, trabalhou como projecionista em outros cinemas de rua, incluindo o Cine Teatro Cuiabá e o Cine Bandeirantes e estava presente no que chamava de cineminhas, que eram diversos cinemas de rua da cidade que projetavam filmes em 16mm e tinham grande aderência do público.
Depois de um longo tempo de dedicação ao cinema, Alencastro formou-se geógrafo e cartógrafo pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e realizou pós-graduação em aerofotogrametria pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS). Tornou-se pesquisador e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT), dedicando-se à pesquisa em história e cultura de Mato Grosso, trabalhou também para a extinta Fundação de Pesquisas Cândido Rondon.
Aníbal possui um rico acervo de fotografias e objetos ligados ao cinema e às telecomunicações, incluindo projetores de diferentes bitolas. Desde a década de 1990, Alencastro contribuiu como pesquisador para o registro da memória sobre o cinema em Mato Grosso, através da publicação de livros como “Anos dourados dos nossos cinemas”, apresentações de palestras sobre as salas de cinema de Mato Grosso, bem como com a organização de exposições com objetos e dispositivos de seu acervo pessoal que já percorreram diversos espaços culturais de Cuiabá, como Cineclube Coxiponés, MACP/Centro Cultural da UFMT, Arquivo Público de Mato Grosso, MISC, Cine Teatro Cuiabá e Pantanal Shopping.

Lázaro Papazian
Lázaro Papazian foi uma figura pioneira e multifacetada no cenário cultural de Cuiabá e, por extensão, do Mato Grosso. De origem armênia, ele chegou à cidade em 1926, trazendo consigo uma sensibilidade para registrar a realidade através da fotografia e do cinema. Reconhecido como o primeiro repórter fotográfico de Mato Grosso, Papazian dedicou boa parte de sua vida a documentar os momentos históricos e culturais da capital cuiabana, garantindo que incontáveis episódios do cotidiano fossem preservados para as gerações futuras.
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Ao longo de sua carreira, Lázaro Papazian desempenhou múltiplas funções que iam além da fotografia. Ele assumiu papéis diversos, como o de empreendedor—através da administração de cinemas—e até mesmo de escritor e diretor em jornais, demonstrando uma versatilidade que o colocava na vanguarda das artes visuais e da comunicação em sua região. Seus registros visuais não só documentaram grandes eventos e transformações urbanas como também contaram com o olhar atento a cenas do cotidiano, contribuindo assim para a memória coletiva da cidade.
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Atualmente, o legado de Papazian é mantido vivo por meio de seu extenso acervo fotográfico, que abrange mais de sete décadas da história de Cuiabá. Esse acervo, que enfrentou diversos desafios ao longo dos anos— como abandono, incêndios e inundações—, agora encontra um espaço de preservação e valorização no Museu da Imagem e Som de Cuiabá, batizado em sua homenagem. Essa iniciativa não apenas torna acessível a obra de Papazian para pesquisadores e o público em geral, mas também ressalta a importância do patrimônio visual na construção da identidade cultural de uma cidade.